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22/Jul/2019

Ministério da Saúde

Alzheimer: o que é, causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção

O que é Alzheimer?

A Doença de Alzheimer (DA) é um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memória, comprometimento progressivo das atividades de vida diária e uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e de alterações comportamentais. A doença instala-se quando o processamento de certas proteínas do sistema nervoso central começa a dar errado.

Surgem, então, fragmentos de proteínas mal cortadas, tóxicas, dentro dos neurônios e nos espaços que existem entre eles. Como consequência dessa toxicidade, ocorre perda progressiva de neurônios em certas regiões do cérebro, como o hipocampo, que controla a memória, e o córtex cerebral, essencial para a linguagem e o raciocínio, memória, reconhecimento de estímulos sensoriais e pensamento abstrato.

No Brasil, centros de referência do Sistema Único de Saúde (SUS) oferecem tratamento multidisciplinar integral e gratuito para pacientes com Alzheimer, além de medicamentos que ajudam a retardar a evolução dos sintomas. Os cuidados dedicados às pessoas com Alzheimer, porém, devem ocorrer em tempo integral. Cuidadores, enfermeiras, outros profissionais e familiares, mesmo fora do ambiente dos centros de referência, hospitais e clínicas, podem encarregar-se de detalhes relativos à alimentação, ambiente e outros aspectos que podem elevar a qualidade de vida dos pacientes.

IMPORTANTE: A Doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência neurodegenerativa em pessoas de idade, sendo responsável por mais da metade dos casos de demência nessa população. A causa ainda é desconhecida, mas acredita-se que seja geneticamente determinada.

Quais são os sintomas do Alzheimer?

O primeiro sintoma, e o mais caracterísitco, do Mal de Alzheimer é a perda de memória recente. Com a progressão da doença, vão aparecendo sintomas mais graves como, a perda de memória remota (ou seja, dos fatos mais antigos), bem como irritabilidade, falhas na linguagem, prejuízo na capacidade de se orientar no espaço e no tempo.

Entre os principais sinais e sintomas do Alzheimer estão:

falta de memória para acontecimentos recentes;

repetição da mesma pergunta várias vezes;

dificuldade para acompanhar conversações ou pensamentos complexos;

incapacidade de elaborar estratégias para resolver problemas;

dificuldade para dirigir automóvel e encontrar caminhos conhecidos;

dificuldade para encontrar palavras que exprimam ideias ou sentimentos pessoais;

irritabilidade, suspeição injustificada, agressividade, passividade, interpretações erradas de estímulos visuais ou auditivos, tendência ao isolamento.

A melhor forma de prevenir o Alzheimer é mantendo a estimulação cerebral constante.

Quais são os estágios do Alzheimer?

A doença de Alzheimer costuma evoluir para vários estágios de forma lenta e inexorável, ou seja, não há o que possa ser feito para barrar o avanço da doença. A partir do diagnóstico, a sobrevida média das pessoas acometidas por Alzheimer oscila entre 8 e 10 anos. O quadro clínico costuma ser dividido em quatro estágios:

Estágio 1 (forma inicial): alterações na memória, na personalidade e nas habilidades visuais e espaciais.

Estágio 2 (forma moderada): dificuldade para falar, realizar tarefas simples e coordenar movimentos. Agitação e insônia.

Estágio 3 (forma grave): resistência à execução de tarefas diárias. Incontinência urinária e fecal. Dificuldade para comer. Deficiência motora progressiva.

Estágio 4 (terminal): restrição ao leito. Mutismo. Dor à deglutição. Infecções intercorrentes.

IMPORTANTE: Nos casos mais graves do Alzheimer, a perda da capacidade das tarefas cotidianas também aparece, resultando em completa dependência da pessoa. A doença pode vir ainda acompanhada de depressão, ansiedade e apatia.

Como é feito o tratamento da Doença de Alzheimer?
A doença de Alzheimer é incurável. Dessa forma, o objetivo do tratamento é retardar a evolução dos sintomas e preservar pelo maior tempo possível as funções intelectuais da pessoa. Os melhores resultados são obtidos quando o tratamento é iniciado nas fases mais precoces da doença.

Uma vez iniciado, o tratamento precisa ser reavaliado pelo médico ao completar um mês, mas deve ser mantido obrigatoriamente por um período mínimo de 3 a 6 meses, para que se possa ter ideia da eficácia do tratamento. Enquanto a resposta for favorável, o medicamento, indicado conforme cada caso, não deve ser suspenso, sendo fundamental a tomada diária nas doses e observar os intervalos prescritos. A administração irregular compromete o resultado final.

Numa doença que progressiva nem sempre é fácil avaliar resultados. Esse é o caso do Alzheimer. Por essa razão, é fundamental que os familiares utilizem um diário para anotar a evolução dos sintomas. Como fazer essas análises? Por meio de perguntas simples, com as devidas anotações:

A memória está melhor?

Os afazeres diários são cumpridos com mais facilidade?

O quadro está estável?

O declínio ocorre de forma mais lenta do que antes da medicação?

Sem essas anotações fica impossível avaliar a eficácia do tratamento.

Os serviços e tratamentos para a Doença de Alzheimer são ofertados nos Centros Especializados em Reabilitação, que são pontos de atenção ambulatorial especializados em reabilitação que realizam diagnósticos e o tratamento completo para a pessoa com Alzheimer.

Quais são os medicamentos usados no tratamento?

Os pacientes com Alzheimer têm à disposição a oferta de medicamentos capazes de minimizar os distúrbios da doença, que devem ser prescritos pela equipe médica. O objetivo do tratamento medicamentoso é, também, propiciar a estabilização do comprometimento cognitivo, do comportamento e da realização das atividades da vida diária (ou modificar as manifestações da doença), com um mínimo de efeitos adversos.

Por isso, no âmbito do Ministério da Saúde, está disponível nas unidades de saúde de todo o país, o medicamento Rivastigmina adesivo transdérmico para o tratamento de demência para Doença de Alzheimer. Este tratamento está previsto no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) desta condição clínica, que além do adesivo, preconiza o uso de medicamentos como:

Donepezila.

Galantamina.

Rivastigmina.

Memantina.

A rivastigmina já era oferecida por via oral, porém tinha o inconveniente de causar alguns desconfortos gastrointestinais no paciente, como náusea, vômito e diarreia. Para tentar diminuir esses efeitos indesejáveis, foi incorporada essa nova apresentação, que será indicada pelo médico que acompanha o paciente. Além disso, os pacientes com Alzheimer, podem tomar mais medicamentos ou menos que a quantidade prescrita, devido ao esquecimento.

O acesso a esses medicamentos ocorre por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), do Ministério da Saúde, e é uma estratégia de acesso a medicamentos no âmbito do SUS, caracterizado pela busca da garantia da integralidade do tratamento medicamentoso, em nível ambulatorial, cujas linhas de cuidado estão definidas em Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas publicados pelo Ministério da Saúde.

Sendo assim, para ter acesso aos medicamentos elencados acima, os pacientes devem atender aos critérios de elegibilidade do PCDT e apresentar os seguintes documentos em um estabelecimento de saúde designado pelo gestor estadual:

I - cópia do Cartão Nacional de Saúde (CNS);

II - cópia de documento de identidade, cabendo ao responsável pelo recebimento da solicitação atestar a autenticidade de acordo com o documento original de identificação;

III - Laudo para Solicitação, Avaliação e Autorização de Medicamentos do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (LME), adequadamente preenchido;

IV - prescrição médica devidamente preenchida;

V - documentos exigidos nos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas publicados na versão final pelo Ministério da Saúde, conforme a doença e o medicamento solicitado; e

VI - cópia do comprovante de residência.

Quais são os fatores de risco da Doença de Alzheimer?

A identificação de fatores de risco e da Doença de Alzheimer em seu estágio inicial e o encaminhamento ágil e adequado para o atendimento especializado dão à Atenção Básica, principal porta de entrada para o Sistema Único de Saúde (SUS), um caráter essencial para um melhor resultado terapêutico e prognóstico dos casos.

Alguns fatores de risco para o Alzheimer são:

a idade e a história familiar: a demência é mais provável se a pessoa tem algum familiar que já sofreu do problema;

baixo nível de escolaridade: pessoas com maior nível de escolaridade geralmente executam atividades intelectuais mais complexas, que oferecem uma maior quantidade de estímulos cerebrais.

IMPORTANTE: Quanto maior for a estimulação cerebral da pessoa, maior será o número de conexões criadas entre as células nervosas, chamadas neurônios. Esses novos caminhos criados ampliam a possibilidade de contornar as lesões cerebrais, sendo necessária uma maior perda de neurônios para que os sintomas de demência comecem a aparecer. Por isso, uma maneira de retardar o processo da doença é a estimulação cognitiva constante e diversificada ao longo da vida.

Cuidados especiais com as pessoas que têm Alzheimer
É necessário seguir algumas dicas e orientações para cuidar de pessoas com Alzheimer, em especial aos pacientes que fazem tratamento em casa (Home Care), ajudando a dar maior conforto e qualidade de vida.

Para evitar quedas em casa
Conserve objetos de uso cotidiano sempre no mesmo lugar e com fácil acesso.

Evite produtos que deixem o piso escorregadio, além de tapetes e capachos.

Deixe os locais de circulação livres.

Ilumine todos os cômodos da casa.

Evite que o idoso use chinelos e sapatos com sola lisa, desamarrados ou mal ajustados.

Eleve a altura das cadeiras, poltronas, camas e vasos sanitários.

Utilize corrimão em escadas.

Para diminuir a agitação
Não receba muitas visitas em casa de uma só vez.

Evite barulhos, ruídos, sons muito altos e discussões em casa.

Evite mudanças bruscas na rotina do paciente.

Crie distrações, busque novos assuntos, acaricie e abrace a pessoa.

Fale tranquilamente e não discuta com o paciente.

Peça ajuda ao médico, caso não consiga acalmar o idoso.

Cuidados simples podem aumentar qualidade de vida de pessoas com Alzheimer.

Para evitar desequilibrios na saúde
Busque orientação de um nutricionista sobre a dieta adequada nos diferentes estágios da doença.

Mantenha uma rotina de horário e local para as refeições.

Varie refeições e as ofereça em pequenas porções em pequenos intervalos.

Ofereça em média oito copos de líquidos por dia (chás, água, sucos etc.).

Ofereça alimentos com consistência adequada às possibilidades de mastigação.

Cuide da higiene bucal e leve o idoso ao dentista periodicamente

Para evitar acidentes no banho
Cadeira ou banco para o idoso tomar banho sentado.

Barra de apoio ao lado do vaso sanitário.

Piso antiderrapante.

Suporte de sabonete.

Chuveiro ajustável.

Alças ou barras de apoio nos boxes.

Porta do banheiro sem trincos e sem chaves.

Para uma autoimagem positiva
Estabeleça e mantenha uma rotina de asseio.

Permita que o idoso cuide de si mesmo tanto quanto possível.

Materiais de banho e roupas devem ficar dispostos na ordem de utilização.

Enxugue a pele com delicadeza e use hidratantes.

Lave e seque os cabelos.

Leve o idoso ao sanitário a cada três horas ou intervalos menores.

Troque fralda e lençóis sempre após ocorrência de urina ou fezes.

Mantenha a cama sempre limpa e os lençóis bem esticados.

Para evitar estresse
Não trate a pessoa como uma criança nem fale dela como se estivesse ausente.

Cheque aparatos como óculos, aparelhos de surdez e mesmo próteses dentárias.

Fale de maneira suave e pausada, transmitindo segurança.

Escolha palavras simples, frases curtas e tom de voz amável e tranquilo.

Chame a pessoa pelo nome e segure sua mão enquanto conversam.

Dê tempo suficiente para respostas a perguntas e demonstre que compreendeu.

Evite discutir e dar ordens. Fale sempre no positivo, dizendo-lhe o que pode e o que deve fazer.

Como é feito o diagnóstico da Doença de Alzheimer?
O diagnóstico da Doença de Alzheimer é por exclusão. O rastreamento inicial deve incluir avaliação de depressão e exames de laboratório com ênfase especial na função da tireoide e nos níveis de vitamina B12 no sangue.

O diagnóstico do Alzheimer no paciente que apresenta problemas de memória é baseado na identificação das modificações cognitivas específicas. Exames físicos e neurológicos cuidadosos acompanhados de avaliação do estado mental para identificar os déficits de memória, de linguagem, além de visoespaciais, que é a percepção de espaço.

Vale ressaltar mais uma vez que o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e em tempo oportuno é fundamental para possibilitar o alívio dos sintomas e a estabilização ou retardo da progressão da doença.

→ Acesse nossa página temática especializada em depressão

Como prevenir a Doença de Alzheimer?
A Doença de Alzheimer ainda não possui uma forma de prevenção específica, no entanto os médicos acreditam que manter a cabeça ativa e uma boa vida social, regada a bons hábitos e estilos, pode retardar ou até mesmo inibir a manifestação da doença.

Com isso, as principais formas de prevenir, não apenas o Alzheimer, mas outras doenças crônicas como diabetes, câncer e hipertensão, por exemplo, são:

Estudar, ler, pensar, manter a mente sempre ativa.

Fazer exercícios de aritmética.

Jogos inteligentes.

Atividades em grupo.

Não fumar.

Não consumir bebida alcoólica.

Ter alimentação saudável e regrada.

Fazer prática de atividades físicas regulares.


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  • 04/Jun/2020

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  • 22/May/2020

    Cleber Vernillo de Toledo - Psicólogo Clínico - CRP: 08/30258

    A importância da saúde mental dos familiares e cuidadores de idosos: Impactos familiares e subjetivos

    Todos nós temos em alguma medida conhecimento sobre as fases da vida e esperamos passar por todas elas, pois seria o curso natural, nascer, se desenvolver, envelhecer e morrer. Contudo, vivemos em uma sociedade imediatista, que vive pelo agora, pois esperar já não é mais uma opção, tudo é melhor se acontecer hoje. Vivemos em uma sociedade moldada pelo individualismo, na qual o outro fica em segundo plano e o estilo de vida se molda para as satisfações pessoais. Mas, temos um desafio, nossos pais, irmãos e familiares outros envelhecem. Diante disso, quais seriam os impactos na saúde mental do indivíduo que se propõe a cuidar de um idoso e por muitas vezes se coloca em segundo plano? A forma como a sociedade contemporânea se moldou trouxe para nós um estilo de vida cheio de compromissos e anseios. Falta tempo para a família e aquelas conversas na poltrona junto a vovó, junto a vovô, junto aos pais já não parecem mais interessantes. Mas, são eles que carregam experiências e ensinamentos que ajudam a moldar nossa ética e condutas, afinal, somos até certo ponto produto das relações que estabelecemos com estes desde a nossa infância. Então aquele chá da tarde com a vovó pode ser muito prazeroso e proveitoso. Para definir a sociedade contemporânea e os novos modos de viver e se relacionar Zygmunt Bauman (2003) introduziu o conceito de “modernidade líquida”, para ele as relações são líquidas, passageiras, sem profundidade, ou seja, como se os vínculos fossem rasos, essa forma de relacionar-se substituiu as relações sólidas e rígidas de antes. Entretanto, voltemos à pergunta inicial, os impactos do envelhecimento dos entes queridos também são sentidos pelos membros da família, às vezes um membro da família assume uma maior responsabilidade sobre os cuidados necessários com o idoso como: alimentação, banho, higiene pessoal, agendamento de consultas médicas, acompanhamento em internamento, entre outros zelos. É neste ponto que a atenção que o idoso requer, em razão do estado físico limitado, que o cuidador familiar ou cuidadores familiares podem vir a adoecer. É preciso encontrar um equilíbrio entre as tarefas de cuidado com o idoso e a vida pessoal. Em muitos casos, um membro da família adoece psicologicamente, tem sua saúde mental prejudicada, pois deixa de viver momentos de lazer, ele pode vir a sentir-se na obrigação de estar sempre presente para cuidar do idoso. Não raro, aparecem os discursos como “ela cuidou de mim, agora é mínimo que posso fazer por ela (mãe)”, esse pensamento de “tenho que”, remonta a uma “obrigação”, ou uma forma de “retribuição” pelos anos de dedicação que o indivíduo recebeu da pessoa que hoje necessita de cuidado. Pode-se instalar uma anulação do seu próprio ser em razão cuidado do outro. Temos então, uma ambivalência de necessidades, o desejo de cuidar e não falhar com a pessoa que ama e o cuidado pessoal para que a vida não pare em função do outro e consiga viver de forma plena seus próprios desejos e momentos de lazer sem se sentir culpado por esse motivo. Para Bauman (2003) houve uma mudança no que diz respeito ao conceito de família, antes, até a modernidade, a família era percebida como um pilar, como uma instituição fundamental para sociedade, contudo na modernidade líquida a família perde o valor de pilar dando lugar para os interesses mais individuais e não coletivos, neste sentido se dedicar ao próximo limitaria as ambições individuais, a liberdade de ação e muitas vezes até a percepção de que cuidar de alguém é sacrificar uma vida bem sucedida. O que pode explicar o desinteresse de muitos membros da família no cuidado com os pais idosos, avós etc. Mas isso não exclui o fato de que haja no seio familiar indivíduos que necessitem de cuidados em razão da idade mais avançada. É comum que alguém assuma essa responsabilidade de cuidador. O cuidador(a) pode ser um filho(a), um irmão(a), pode acontecer que a vida deste que se dedica ao idoso fique estacionada em função de um cuidado exclusivo. Alguns sintomas psicológicos e sociais podem surgir como: baixa autoestima, estresse, sintomas ansiosos, fadiga, cansaço mental, falta de energia e interesse por atividades de lazer, nervosismo, crises nervosas, entre outros. É preciso que a família encontre uma forma de cuidar desse idoso de maneira que não sobrecarregue apenas um. Acionar familiares próximos para auxiliar nesse cuidado não deveria ser visto como fraqueza, pelo contrário, é necessário reconhecer os próprios limites e as necessidades individuais de descanso. O compartilhamento do idoso entre os membros da família ou pela contratação de profissionais terceirizados, pode ser uma oportunidade para prevenção de sintomas psicológicos e consequentemente uma manutenção da saúde mental das pessoas envolvidas com o cuidado do idoso, ambos podem se beneficiar, tanto o idoso que deixa de se perceber como um problema para família, quanto o cuidador que renova suas energias físicas e psicológicas para continuar suas tarefas diária. Se faz importante observar que o idoso pode sentir que atrapalha a família e que incomoda os mais novos, ele também pode adoecer, se sentir deprimido, sentir desvalor e até mesmo desenvolver sintomas depressivos mais graves. Os familiares que demonstram amor, cuidado, preocupação, e que visitam frequentemente os pais idosos e outros familiares de idade avançada, contribuem para uma saúde mental destes. Quando a vida se mostra corrida e são muitos os compromissos como, por exemplo, cuidar dos filhos, esposa, marido, estudos, reuniões, viagens, é preciso cuidar para que o idoso não fique sozinho, não se sinta rejeitado, neste momento a ajuda de cuidadores especializados e de outros membros da família, pode sim, ser um auxílio muito importante, e contribuir na amenização de um possível sentimento de solidão que o familiar possa sentir. Erikson (1985) pontuou que no final da vida algum desespero é inevitável, e que alguns lamentos surgem como o lamento pelo que não viveu, pela vulnerabilidade e pela própria transitoriedade que a vida nos impõe. Muitas famílias recorrem aos cuidadores especializados e empresas que fazem a intermediação para contratação desses profissionais. Os cuidadores especializados exercem dentro da família um papel primordial, contribuindo para que o idoso mantenha uma atividade diária que beneficia a manutenção da sua saúde física e mental, auxiliam na higiene pessoal, são atentos aos horários de alimentação e medicalização. Outro benefício na contratação desse profissional se dá pelo fato do idoso continuar sendo assistido no ambiente familiar onde a vida da família acontece e próximo aos seus, o que diminuí a possibilidade de sentir-se sozinho e abandonado. Quando um membro mais velho da família adoece, a organização da família sofre uma alteração e uma reestruturação é necessária, contudo, nem todas as famílias usufruem dessa possibilidade de mudança devido às obrigações e responsabilidades diárias, a contratação de um cuidador também pode ser um suporte para que a maioria dos membros da família não percebam como negativa a reestruturação. A presença do cuidador profissional, em partes, confere aos familiares mais tempo para passar com o idoso, mais momentos de lazer e trocas de afetos, contribuindo para que o vínculo não seja rompido. Vemos um mundo transformado, onde cada vez mais as pessoas estão se fechando, estão focadas em si, e excluindo o outro das relações, o outro passa ser uma ameaça à liberdade, é preciso (re)fazer os laços perdidos, retomar os valores familiares e retribuir os anos de dedicação que um dia recebemos de alguém, pois hora ou outra, estaremos do lado de lá. Este (re)conectar familiar pode contribuir positivamente para relações entre os pares envoltos a função do cuidado para com o idoso, diminuindo as possibilidades do adoecimento psíquico de ambas as partes. E por fim sobre a transitoriedade da vida, deixo as palavras de Cecília Meireles… “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?” Nota complementar: Vivemos em tempos de isolamento social em razão da pandemia provocada pelo Covid-19, e por isso, todo cuidado para com idosos que estão no grupo de risco se faz necessário, neste caso, o contato físico precisa ser evitado, mas temos a tecnologia que pode nos manter próximos mesmos distantes fisicamente. Cuide-se e cuide de quem você ama.

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  • 14/May/2020

    Lorena Caleffi - Médica psiquiátrica / Leonardo Miguel Correa Garcia - Fisioterapeuta

    Isolamento Social: Criar uma rotina pode preservar a saúde mental e física

    Para evitar que se eleve a curva de crescimento do número de casos do novo coronavírus, a recomendação é de isolamento ou distanciamento social para todos aqueles que puderem ficar em casa. Além disso, limitar as saídas apenas para ir ao mercado ou a farmácia, quando muito necessário, são as medidas indicadas para este momento de pandemia mundial. Entretanto, para algumas pessoas, limitar os acessos e ficar apenas em casa pode causar desconforto e provocar sentimentos conflitantes. Para ajudar, não apenas nestes casos como também na organização de uma rotina para os dias de quarentena, a psiquiatra Lorena Caleffi, médica do Serviço de Psiquiatria do Hospital Moinhos de Vento e o fisioterapeuta Leonardo Miguel Correa Garcia do Serviço de Fisioterapia também do Hospital dão dicas de como manter a saúde mental e física de crianças, adultos e idosos. Impactos do isolamento social: Por mais que se tenha conhecimento sobre a importância deste momento de isolamento, a ansiedade pode aumentar, principalmente naquelas pessoas que já possuem algum grau de funcionamento ansioso. “É preciso dar-se conta que são os pensamentos catastrofizantes direcionados ao futuro que são os responsáveis pelo aumento de ansiedade”, explica Caleffi. Outro impacto importante, menos comum, mas que pode ser muito grave, é o aparecimento de sintomas depressivos. “Comportamento de maior isolamento do que o esperado, diminuição de prazer e interesse nas atividades diárias possíveis, insônia e alteração de apetite são sintomas que nos alertam para uma complicação nesse sentido”, complementa a especialista. Conscientizar-se de que esta situação é temporária, respeitar seu próprio ritmo e capacidade de absorver as informações são cuidados que podem ajudar no entendimento e clareza das ideias. As notícias estão por todos os lados e isso pode causar diversos sentimentos, desta forma, se for o caso, desligue a TV e se desconecte do celular por algumas horas. As informações continuarão à sua disposição para quando você puder acompanhá-las melhor. Dicas para manter a saúde mental e física: Ler, interagir com outras pessoas e praticar exercícios físicos são algumas dicas importantes para os dias de confinamento. A primeira exercita diversos circuitos cerebrais fundamentais para a manutenção das funções cognitivas. Já a segunda, ajuda a manter o contato afetivo com outras pessoas. E, sem dúvida, a prática de atividades físicas é fundamental para a saúde. “Exercícios contribuem para um bem-estar geral, ocasionando diversos benefícios ao nosso corpo, melhora da condição cardiovascular e, também, em situações que são muito pertinentes ao momento: a diminuição de estresse e ansiedade e melhora da imunidade. A boa alimentação também é importante”, destaca Leonardo. Caso não tenha a orientação de um profissional, a pessoa pode optar por realizar exercícios simples como pular corda, realizar apoios, abdominais, agachamentos, polichinelos e utilizar garrafas de água ou embalagens de 1kg de alimento como pesos. É indicado variar o tipo de treino a cada dia, evitando a monotonia. Este tipo de atividade pode ser realizada tanto por adultos quanto por idosos que não possuam nenhuma doença cardiovascular, respiratória ou nas articulações. “Saliento a importância de as atividades serem e possuírem a intensidade e carga adequada para o praticante tolerar todo o exercício e evitar possíveis lesões e dores indesejadas”, diz o fisioterapeuta. Para as crianças, a recomendação é estimular as atividades lúdicas. Além das brincadeiras, também existem os jogos de videogame com sensores de movimento, o que possibilita unir o desafio e o exercício. Estabeleça uma rotina: Para organizar todas essas dicas, o primeiro passo é criar uma rotina. Sem as atividades diárias normais, a organização da semana fica prejudicada. Por isso, para começar, é preciso ter um planejamento: estabeleça o que vai fazer, organize seu dia de forma consciente e tenha um propósito. As crianças são as que mais necessitam de organização. Com as escolas suspensas, sem poder encontrar os amigos para brincar ou respeitar a programação das aulas, a sensação de desestabilização pode causar muita angústia. Os adultos são os responsáveis por prover esta estruturação, acolhendo as incertezas e inseguranças dos pequenos. “O caminho é conversar, perguntar, acolher, entender, e reassegurar”, adverte Lorena. Os idosos estão sob cuidado total da sociedade, por serem a faixa etária de maior risco. É necessário ajudá-los no que for preciso, para evitar que eles se exponham desnecessariamente. Somado a isso, tirar um tempo para conversar com eles é uma maneira de ajudar com a inquietude do isolamento. “Uma peculiaridade desta faixa etária é estar, pelas leis da natureza, mais próxima do final da vida. A proximidade da morte, a ameaça à nossa sobrevivência, provocam uma noção de finitude que não estamos acostumados a ter em nossa cultura. Porém, essa consciência também pode trazer uma nova maneira de ver a vida. Pode modificar nossas escalas de valores ao percebermos o que realmente importa e que vida queremos deixar de herança, por qual biografia queremos ser lembrados”, finaliza Caleffi.

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